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04/09/17

Entre boiadeiros e ciganos

Por Jornalista Romar Rudolfo Beling









À medida que o tempo passa e são introduzidas novas tecnologias na rotina social, alguns personagens do passado, que por vezes detinham funções relevantes, pouco a pouco somem na bruma. As pessoas com mais idade certamente lembram de ocupações que, de hora para outra, tornaram-se obsoletas. Nem por isso deixam de ter seu charme quando resgatadas pela memória.

Em décadas passadas, figuras como a do entregador de correspondências no interior, bem como os caixeiros-viajantes, eram indispensáveis. Quando os centros urbanos maiores na região se resumiam a Cachoeira do Sul, Santa Cruz do Sul e Santa Maria, muitas vezes alguns viajantes, a cavalo ou em carroças, é que faziam o abastecimento dos mais diversos víveres nas localidades afastadas do interior. Em filmes e romances de época, como os de Erico Verissimo e de Luis Antonio de Assis Brasil, por vezes aparece um vendedor de tecidos ou de utensílios domésticos, e os proprietários de fazendas aproveitam sua visita para adquirir alguma novidade. O mesmo valia para vendedores ambulantes, que saíam a pé ou a cavalo, com seus caixotes de mantimentos.

Consigo ter memória clara de um período que nem está tão distante assim no tempo, os anos de 1970. Apenas 40 anos nos afastam daqueles dias, mas alguns personagens que se materializam na imaginação realmente perambulavam pela região serrana de Agudo. E se andavam por Linha dos Pomeranos significa que se faziam presentes, de tempos em tempos, nas demais localidades. Recordo em especial de duas categorias de andarilhos que eram muito frequentes por aqueles anos: os condutores de gado e os ciganos. Os primeiros, como se sabe da História, são tão importantes porque de certo modo inclusive abriram as primeiras vias efetivas, na condição de bandeirantes, entre Rio Grande do Sul e São Paulo, tendo conduzido boiadas dos campos e das estâncias isoladas do Sul para matadouros paulistas, a fim de garantir carne para a população das cidades do Sudeste.

Em meados do século XX claro que já haviam aparecido trens e caminhões, que mudaram a maneira de transportar os animais. Mas o fato é que nos anos 1970 ainda era possível ver vaqueiros ou boiadeiros reunindo manada, que ia crescendo conforme passavam de localidade em localidade, adquirindo animais em propriedades, juntando-os na tropa e levando-os estrada afora. Fecho o olho e vejo a comprida manada de gado se materializando no horizonte da estrada, ora um animal se desgarrando e obrigando ao esforço de reuni-lo aos demais. Obviamente, o lote avançava lentamente, de maneira que pernoites ou pousos tinham de ser programados, mantendo a manada em local aberto, com a janta (o que seria? Carne, obviamente) e os causos em torno do fogo de chão, um gole de pinga e um palheiro luzindo no escuro, na linha do que Guimarães Rosa narra.

E os ciganos, então. Onde foram parar os ciganos? Era muito frequente que um grupo deles aparecesse, como se por milagre ou mágica, e fixava acampamento, também em espaços mais abertos, em geral campos de futebol, centros comunitários ou pátios amplos. Lembro com muita segurança de uma das passagens deles por Linha dos Pomeranos, quando um grupo de talvez 20 famílias instalou-se, com suas lonas e seus coloridos, no pátio defronte à casa dos meus pais e no terreno junto ao centro comunitário da igreja evangélica. Ficaram por semanas, e percorriam longas distâncias recolhendo gravetos e lenha para acender o fogo, fazer comida, esquentar água.

 

Por algum tempo, uma comunidade paralela, andarilha, desconhecida, formara-se em meio à comunidade local, e inclusive houve os contatos, com visitas de representantes do grupo ou de ciganas para vender objetos, ou para adquirir frutas, hortaliças e outros alimentos. Um dia, assim como chegaram levantaram acampamento, foram adiante. E sumiram no tempo. Eis que hoje, em pleno ambiente urbano, grita essa curiosidade de saber onde terão ido parar os ciganos, que adotavam um estilo de vida tão incomum, tão misterioso, tão romântico, sem fixar-se em lugar algum e no entanto tendo o mundo todo como uma possibilidade. Como vivem, onde estão hoje e como se mantêm, de onde vêm os meios com os quais conseguem manter seu jeito de viver, tudo isso segue sendo desafio à nossa imaginação, em pleno globalizado e deslumbrado século XXI.





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