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13/10/17

Migrantes dos dias de hoje

Por Jornalista Romar Rudolfo Beling









As recentes eleições gerais na Alemanha, que reconduziram Angela Merkel a mais um mandato como chefe de governo, o quarto seguido, colocaram no centro da mesa o debate em torno da inclusão, naquele país, dos milhares de refugiados que têm chegado a toda a Europa nos últimos anos. Alguns partidos alemães, em especial os da extrema direita, criticam abertamente a política de bom acolhimento a esses migrantes vindos de nações como a Síria e outras do Oriente Médio. Estatísticas indicam que desde 2015 cerca de 900 mil pessoas dessas regiões ingressaram no País, já muito próximo de conformar 1 milhão de refugiados, e que chegam praticamente sem condições de subsistência, tendo em vista que deixaram tudo para trás na travessia do Mediterrâneo.
Acolher a tantas pessoas para que consigam recuperar sua humanidade e sua autoestima não é tarefa das mais simples para uma nação. Eles chegam com outros costumes, outra língua, e certamente não estão preparados para se inserir rapidamente na nova realidade. Além disso, o rompimento por vezes traumático dos vínculos com suas comunidades de origem (família, amigos, até com pais, filhos ou companheiros) cria espaço de fragilidade afetiva e psicológica. O custo social é imenso, e a tomada de decisão de Merkel de recebê-los bem e não rechaçá-los é de profunda nobreza. Claro que há limite para a Alemanha, sob o risco de a própria nação não suportar o ônus e desequilibrar suas finanças. Mais: há sempre iminente o risco de que, ao contrário do governo, que sinaliza com bom acolhimento, grupos extremistas, na sociedade, passem a reagir mal.
Mas se a Alemanha debateu com algum acirramento sua política de acolhimento de refugiados, não é preciso ficar no âmbito do noticiário de jornais, rádios e televisão para se aperceber desse fenômeno da atualidade. Na maioria das cidades de porte médio do Brasil, em particular nas capitais, a presença, em número crescente, de imigrantes, em geral haitianos e senegaleses, tem sido evidente. Quem vai a Porto Alegre pode vê-los às centenas pelo centro, tentando se inserir na paisagem: sem domínio da língua, e sem documentação para se candidatar a vagas no mercado formal, apelam para a venda silenciosa de artigos importados, sobre pequenas bancas ou panos na calçada. Lá estão, algo constrangidos, quietos, manuseando celulares com o olhar atento a notícias que lhes cheguem de longe, dos familiares ou amigos que deixaram para trás do outro lado do Atlântico. Em Santa Cruz do Sul, igualmente senegaleses circulam pelo centro.
Pois estes, se num primeiro momento parecem deslocados na rotina, ao mesmo tempo precisam ser acolhidos com uma mínima estrutura para que possam se manter, ter onde dormir, alimentar-se. Bastaria a cada um de nós colocar-se no papel daquele que, sem esperança de dias melhores, toma-se da coragem de embarcar para o estrangeiro, para longe, e lá tentar a sorte. Não foi exatamente o mesmo que, há quase dois séculos, fizeram milhares de alemães e de italianos, quando deixaram sua terra e se aventuraram no distante sul da América? Foi por decisões semelhantes, diante da fé em nova vida, que nossos antepassados embarcaram num navio e vieram colonizar o Rio Grande do Sul. Hoje, senegaleses e outros povos encontram-se na mesma encruzilhada. Cada vez que vejo um destes imigrantes penso que, no passado, os que já residiam por aqui devem ter tido a mesma curiosidade em torno de quem vinha de longe, com outros hábitos e outra língua. E repare-se em quantos brasileiros ainda hoje vão tentar a sorte nos Estados Unidos.
O Senegal tem cerca de dois terços do território do Rio Grande do Sul, mas por sua vez este tem cerca de dois terços da população daquele país, situado no extremo oeste da África, no litoral atlântico, na vizinhança de Mauritâna, Mali, Guiné, Guiné-Bissau e Gâmbia. É de lá que milhares de cidadãos partiram e, de repente, se presentificaram em nossa realidade. Muitos, sozinhos e isolados, distantes de seu mundo, por aqui começarão a namorar, constituirão família, terão filhos, e em breve uma primeira geração de brasileiros-senegaleses tende a surgir. É assim que ocorre. Foi assim com alemães e italianos, e assim será sempre. Não ficamos mais pobres, e nem estamos ameaçados por tal tendência. Isso nos torna a cada vez mais ricos, mais nobres, mais... humanos.





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