26 ºC
Programa Bandas & Cia
AO VIVO

03/11/17

Colônia Santo Ângelo de Imigração Alemã – A coragem de muitos, hoje vivida por todos!”.

Por Paulo Augusto Wilhelm









Quinze lustros são hoje passados,

Que, transpostas as ondas do mar,

Bons heroes, ao labor dedicados,

A estas plagas vieram parar.

 

Eram seis, co’as famílias sómente.

Da germânica raça provindos,

Que um futuro, sonhavam, ridente, 

No Brasil dos encantos infindos.

 

Nutriam n’alma o desejo fagueiro,

De um porvir, para os filhos, melhor;

Assim eles, o adeus derradeiro,

À sua pátria disseram, com dor.

 

E no porto de Hamburgo, agitado,

‘Stava o Irene, já pronto a singrar...

Era, pois, da partida chegado,

O momento de imenso pezar.

 

Breve, um silvo estridente se ouviu.

Breve, o barco se pôs a mover...

E no grupo emigrante se viu

Mudo pranto dos olhos correr.

 

As imagens, ness’hora os maguava,

Da sua pátria... de amigos semblantes,

Que esse barco, na mente avivava,

Ao leva-los ás zonas distantes.

 

Peripécias e longas tormentas,

Encontraram na Atlantica via;

Porém, como as procelas violentas,

Na alma, a interna tormenta zunia.

 

Era a dúvida... a dôr... a saudade...

A incerteza... o receio... o cuidado....

Era emfim, um tumulto que invade,

O presente, o futuro, o passado.

 

Longa foi esta viagem penosa,

Mas, por fim, ao destino chegaram,

Aportando a esta terra formosa,

Onde logo agasalho encontraram.

 

Do Rio Grande faltava sulcar,

A Lagôa, o Guaíba, o Jacuí.

O “D. Pedro”, enfim, veiu alcançar.

Serro Chato... E depois até aqui!...

 

Por picadas vieram trilhando,

Onde acharam espinhos, serpentes...

Donde ouviram a féra ululando

Internada nos bosques ingentes.

 

De terror, as mulheres, os filhos,

Se puzeram então a chorar,

Não queriam seguir nesses trilhos,

E sim, todos, ao barco voltar.

 

E voltaram... Porém dos barrancos,

Não mais viram o barco ancorado;

E, da angústia por entre os arrancos,

Retomaram os trilhos deixados.

 

Prosseguiram a medo, até o vale,

Que perfaz este fértil torrão.

Mas quem há que de tudo nos fale?

Do sentir que provaram então?

 

Nem havia mesquinha estalagem,

Um refúgio da muita investida...

Foi mister que de pano e ramagem,

Construíssem sua frágil guarida.

 

Mais que nunca da pátria a lembrança,

Fez-se forte a sua mente sentir...

Mais que nunca, o sonhar de esperança,

De suas almas sentiram fugir.

 

Bem depressa, porém, encontraram,

Os segredos da terra hospital:

Terra boa!... E nos céus avistaram,

O Cruzeiro, o bom sól tropical.

 

Viram passaros, frutos e flores,

Fauna rica, no vasto sertão,

Aves várias, gentís, multicores,

Brasileiros de bom coração.

 

Assim, eles as matas cortaram,

Sendo agora aos perigos afeitos,

E no solo a semente deitaram,

E nas casas fizeram seus leitos.

 

A’s primeiras famílias, mais sete,

Lá da Europa vieram se unir;

Eis que logo o progresso reflete,

Da união, o operoso existir.

 

E fizeram vivendas e estradas,

E colégios, e igrejas, e tudo,

Que, por premio das faces suadas,

Preparasse “um explendido Agudo”.

 

Setenta anos e um lusto passaram...

E passaram os bravos campeões...

Porém, destes, no Agudo, ficaram,

Mais de duas, mais de três gerações.

 

Estas hoje festejam a data,

Que transcorre solene e feliz;

E saúdam, com alma mui grata,

Esta patria, este rico país.

 

Tambem lembram, com grata memoria.

Calden,  Helberg e o Pulmann bondoso,

Finger, Rochenbach, pois são nesta história,

Muito dignos de um preito saudoso.

 

Muito ainda, senhores, teria,

Deste ciclo que passa, a contar;

Mas não sei exprimi-lo em poesia,

E por isso vou breve acabar.

 

Que vos fale por mim o grandioso

Monumento que aí se levanta;

Que nos fale esta festa, este gôso,

Estre dia, que a todos encanta.

 

E de mil gentilêsas e brios,

Que o Gaucho aos avós demonstrou

Que vos falem os túmulos frios...

Pois que a todos o sono baixou.

 

Terminando estes versos, eu quero

Dar um viva a esta terra gentil

Que agasalha co’aféto sincero...

Viva pois, nosso caro Brasil.

*********** 

Recebi, há alguns anos, do Professor e pesquisador Tiago Janner, arquivo com as páginas do Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, de 13 de novembro de 1932, com detalhada cobertura da comemoração dos 75 anos da colonização alemã na Colônia Santo Ângelo, nos dias 6, 7 e 8 de novembro daquele ano, realizada pelo correspondente do jornal à época, Senhor Marcilio Rohde. “Revestiram de brilho inexcedível as comemorações alí realizadas, em regozijo pela passagem dessa data”, se escreveu. Oitenta e cinco anos depois, eis-nos aqui, vivendo o lema que nasceu da saga deste povo: “Colônia Santo Ângelo – a coragem de muitos, hoje vivida por todos!” O poema que transcrevo, preservando-lhe a grafia original, foi declamado pela jovem Lili Kegler, quando da inauguração do Monumento ao Imigrante em Cerro Chato. Entendi ser texto genuinamente apropriado para esta edição, que circula no jubilar 1º de novembro, de 2017. Obrigado Professor Janner.

** 

Agradeço, igualmente a compreensão da editoria do CA por permitir que, nesta edição especial, a coluna pudesse ocupar maior espaço, possibilitando a transcrição integral deste rico poema.

***********

Li, ouvi ou vi... – Ouvi: Vi que vale a pena retomar, sempre e de novo, a história de nossa comunidade. Conhecendo melhor o que se fez e como as coisas aconteceram, aumenta o discernimento para ler o presente e ajudar a construir o que ficará para as gerações que virão.





Rádio


Contato
Institucional
Equipe
Programação
logo

desenvolvimento Universo Web

Conteúdo


Áudios
Colunas
Galeria de fotos
Notícias



×

Márcio J. Nunes

Bandas & Cia - com Márcio J. Nunes
Hora de início: 14h 30min
Hora de término: 16h 00min
Voltar