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08/02/18

“Não é assim que se derruba um Ipê Roxo.”

Por Paulo Augusto Wilhelm









Da mesma forma como as placas tectônicas são impelidas pela força da natureza, e seu movimento produz efeitos, normalmente danosos,  na crosta terrestre, também o espaço de convivência gregária das pessoas, que melhor conhecemos por sociedade, é impactado pelo desarranjo que causa o realinhamento dos sistemas, que pode ser, igualmente, danoso. Ambos os sismos – o da terra e o da sociedade – carregam em si uma imponderável força. Não os compreendemos e sequer os desejamos. No entanto, sentimos seus efeitos, que podem nos abalar.
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Em Agudo pode ter havido vulcões. Conjecturo isso baseado na empírica observação do formato do Morro Agudo, parecido com o Monte Fuji, no Japão. Mas se não houve estes, a sociedade não escapou dos efeitos Da reacomodação das estruturas que lhe fundam e dão suporte. Registros documentais e orais dão conta de surgimentos e ocasos de entidades e causas que a comunidade em determinado momento de sua história desejou e fez, e que, em outro momento, já não mais mostravam o vigor necessário para evitar que as cinzas lhes cobrissem o calor vivificante. O ir e vir, o nascer o ficar vivo, sobreviver e crescer ou o sucumbir diante de uma nova lógica dos tempos são inexoráveis trajetórias por que passa a vida das pessoas e dos grupos.
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Abandono o cientificismo e vou ao mundo real, onde se encontram duas esferas de governo que acordaram entre si produzir grande efeito em uma comunidade. Explico. O Governo do Estado e o Município ajustaram a redistribuição de parte da população estudantil da Escola Estadual de Educação Básica D. Érico Ferrari, em Cerro Chato, agora, em 2018. Lavrado o acordo, que teve motivação inicial em uma das partes – resta saber se quem ofereceu ou quem pediu – um comando eletrônico fechou o sistema de matrículas dos primeiros cinco anos do ensino fundamental e de todo o processo de Educação de Jovens e Adultos – o EJA. A frondosa árvore – tenhamo-la por um Ipê Roxo – teve decepadas, num só “Ctrl + alguma coisa”, as raízes que lhe davam a seiva e os galhos com quê produzia a magnânima fotossíntese, subtraindo ignorância e devolvendo saberes, por gerações. Traduzo a metáfora: retirando a possibilidade de receber novas crianças no início de sua vida escolar, a escola perde o material humano que vai abastecer as demais séries do ciclo de ensino médio à que está habilitada: é a seiva que não mais nutre. Transferindo os alunos que até o ano passado ali estudaram, subtrai da escola a vibrante presença de quem é a razão de sua existência, e nela realiza seu processo de aprender os códigos e os conceitos necessários no competitivo mundo que vive.
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Não sei quem empunhou o machado. Mas sei que, se foi como se têm dito, esta não é, decisivamente, a melhor forma de abater um Ipê Roxo.
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Se no início do texto afirmei que a sociedade, assim como a natureza, apresentam cíclicos rearranjos, que podem resultar em danos, o episódio vivido pela comunidade escolar e de vivências da D. Érico Ferrari deixa a mostra que estamos diante de um desses tempos. E, ante tal circunstância, podemos reagir com paixão ou com razão. Eu sou apaixonado pela D. Érico. Entretanto, por viés pessoal, racionalizo. Os números, se efetivos, dizem que chegou na minha Cerro Chato, há menos de quinhentos metros de onde escrevo, o efeito da queda das taxas de natalidade na população. Os governos precisam levar em conta esta realidade, doa a quem doer.
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Mas que faltou sensibilidade, faltou. Não é assim que se derruba um Ipê Roxo.







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